sexta-feira, 12 de abril de 2013

  • Contos: Atestado de óbito

     
    Manhã fria de Segunda-feira. Um relógio quebrado pendurado na parede marca 13 horas e 46 minutos. Ao meu redor somente cadeiras vazias e um silêncio desesperador. De repente a porta abre e uma voz forte me chama: Antônio Ferreira dos Santos.
    Nunca gostei de ir ao médico, estava ali por uma obrigação da empresa, era uma ordem do patrão. Nesse dia iria saber o resultado dos meus exames de sangue e urina. Após analisar meu hemograma, o Doutor olhou fixamente nos meus olhos. Ele ia dizer algo, mas uma enfermeira entrou na sala e interrompeu:

    - Doutor Paulo, hoje só temos problemas aqui. A paciente do quarto 282 morreu, foi parada cardíaca. E um menino acaba de chegar à emergência, vítima de bala perdida, o estado é grave. O senhor ficará para cuidar desse caso?
    O Doutor bate na mesa e diz furioso:
    - Porra Renata, não aguento mais, há três dias estou cumprindo plantões aqui nessa merda, preciso descansar também. Não conte comigo nessa, eu tenho mulher e filhos para cuidar. Fale com o Roberto, ele saberá o que fazer.
    A enfermeira bate a porta e sai correndo. Observando todo esse descaso médico fiquei profundamente revoltado e perguntei qual era, afinal, o resultado do meu exame. Nessa hora o celular do médico tocou, ele atendeu com um semblante de felicidade e disse bem rápido:
    - Me espere hoje à tarde naquela mesma praça, perto da Estação Pinheiros. Te amo Ana, beijos no seu corpo todo.
    Estava ficando impaciente com toda a situação no consultório. Olhei fixamente para um carimbo em cima da mesa e, finalmente, escutei o resultado da porra do exame. Palavras que pareciam facas afiadas atravessavam o meu coração naquele momento:
    - Seu Antônio, infelizmente, foi detectado através do seu hemograma uma doença muito rara e num estágio já avançado. Faremos um tratamento rigoroso a partir de hoje. Mas devo informar que as suas chances de cura são praticamente nulas e o senhor só tem aproximadamente um mês de vida, talvez um pouco mais ou um pouco menos. Pode se levantar e ir embora.
    Um triste silêncio predominou no consultório. Naquele instante, ao longo dos meus 58 anos, passaram na minha cabeça flashes dos momentos mais marcantes da minha vida, como: o nascimento da minha filha, a morte dos meus pais, o acidente de carro que sobrevivi, minhas paixões da adolescência e muitos outros momentos que serão enterrados comigo em breve.
    Saí do hospital feito um louco, bati a porta, chutei as cadeiras e desci correndo pela escada. Minha vida não tinha mais nenhum sentido. É muito triste viver sabendo a data de sua morte e não poder fazer nada para mudar esse terrível destino.
    O mundo escureceu ao meu redor, passei o resto da manhã andando pela cidade sem rumo. Só pensava em uma única coisa, dar um ponto final nessa agonia de ter dia marcado para morrer. Às 13 horas e 39 minutos entrei na Estação Pinheiros de Trem e decidi cometer um suicídio.
    O trem estava vindo, comecei a tremer e chorar. De repente, uma moça se aproximou de mim e disse:
    - Senhor, está se sentindo bem? Quer ir ao médico? É perigoso o senhor passar mal e morrer dentro do trem.
    Ela disse a palavra médico. É incrível como a vida é tão irônica. Olhei nos olhos dela e disse que já tinha o meu Atestado de óbito, que já estava morto desde manhã por causa de um médico. A moça ficou confusa e se afastou.
    Exatamente às 13 horas e 46 minutos pulei nos trilhos. Escutei as pessoas gritando e o mais doloroso foi escutar a voz da minha filha que, por coincidência, estava na estação também:
    - Pai, pai, não faça isso! Nãoooo!
    Comecei a sentir os ferros cortando violentamente os meus pés e em seguida senti meu corpo sendo dilacerado rapidamente pelos vagões. Minha cabeça foi esmagada e os miolos se espalharam pelos trilhos. O sangue espirrou nas pessoas que estavam na plataforma e meu braço ficou pendurado na frente do trem. Como fundo musical dessa cena horrorosa ficaram os gritos e o choro da minha filha.
    Doutor Paulo, após almoçar e sem demonstrar preocupação com seus pacientes, sai do hospital e vai ao encontro de Ana, sua amante. Mas o que ele não sabe é que cometeu o maior erro de sua vida nessa manhã. Ele havia trocado o resultado do exame de sangue de Antônio, que estava normal e tinha uma longa vida, pelo exame de Antônia, que estava prestes a morrer.
    Um erro fatal que custou uma vida nos trilhos enferrujados da Estação Pinheiros de Trem.

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